Por que pacatos cidadãos se descontrolam num simples bate-bola com os amigos?
A cena deixaria qualquer espectador de boca aberta. A grama do campo foi arrancada com as unhas, e
a rede do gol, rasgada com as mãos. O jogador amador de futebol Daniel Saltanovitch, 27, perdeu um jogo por 2 a 1 e junto o controle. Segundo ele, o juiz “roubou” o placar e prejudicou a equipe com a expulsão de três jogadores. Não. Não era a final da Copa do Mundo. Apenas uma partida de um torneio amador. “Tinha treinado durante cinco meses para a disputa. Fiquei indignado com a atitude do juiz”, conta.
Daniel faz parte de um batalhão de jogadores amadores que perdem a cabeça quando o assunto é a disputa no gramado. Eles não são profissionais, mas xingam os colegas, disparam ordens durante toda a partida e acabam sendo vistos como vilões pelos próprios amigos.“Quando entro em campo é para disputar. Não consigo relaxar durante a partida e odeio perder”.
Regina Brandão, psicóloga do esporte que trabalha com as seleções do Brasil, Portugal e Arábia Saudita, aponta uma característica comum nos jogadores que perdem a cabeça. “São pessoas extremamente competitivas. Eles não se importam se é um jogo entre amigos. Sempre entram em campo para ganhar”, diz ela. “Alguns amadores têm excesso de motivação e vontade de ganhar, o que faz com que percam o controle de emoções básicas”, diz.
“O jogo de futebol é uma atividade de competição, diferente do trabalho ou do convívio social”, explica Marisa Agresta, psicóloga do esporte.
Para Kátia Rúbio, professora da USP (Universidade de São Paulo) e psicóloga do esporte, a frustração é um dos fatores que desencadeiam esse tipo de reação, mesmo em pessoas consideradas tranqüilas dentro e fora do campo. “O jogador treina e se organiza para ganhar e se isso não acontece pode se sentir frustrado”. Ela lembra que até os mais controlados em campo podem ter um dia de fúria.
As conseqüências para quem tem esse tipo de comportamento podem ser cruéis. “Ele acaba com dificuldade em encontrar um grupo de amigos que se disponha a jogar com ele”, conta Kátia.
PROFISSIONAIS
Para os profissionais os prejuízos vão além de problemas de convívio social. Regina Brandão lembra do caso de Luis Fabiano, ex-jogador do São Paulo, que ela tratou durante meses e que hoje joga no Sevilha, na Espanha. “Ele vivia recebendo cartão porque era agressivo em campo. Chegou até mesmo a dar uma voadora em um
zagueiro durante uma partida”, lembra. O episódio aconteceu em uma partida entre São Paulo e River Plate, na semifinal da Copa Sul-Americana de 2003. Luís Fabiano foi expulso e o time perdeu a partida nos pênaltis. “Ele ficou estigmatizado. Os adversário sabiam que ele perdia a cabeça fácil, então provocavam. Os juízes davam cartões porque ele era difícil”, descreve.
Depois de diversos episódios estressantes em campo, Luis Fabiano começou a se conscientizar do problema e procurou tratamento. “A gota d’água foi quando ele perdeu um convite para jogar em um time da Europa depois que os dirigentes viram a voadora que ele deu em campo”, conta. Regina ressalta que o jogador só consegue melhorar depois que toma consciência do problema. “Ele precisa estar predisposto a mudar”.
ASSISTA: BRIGAS NO FUTEBOL, NÃO PERCA A CABEÇA
• Na hora do nervosismo, respire fundo antes de fazer ou falar qualquer coisa;
• faça relaxamento regularmente e alguns minutinhos antes de entrar em quadra ou campo;
• Se outros colegas baterem boca, afaste-se da confusão. Não enfrente a situação no momento do estresse;
• Não responda imediatamente a uma provocação. Tente sempre pensar em duas respostas possíveis antes de reagir a algo que irrite. Evite a reação “bateu-levou”;
• Tente se colocar no lugar de quem está provocando. Avalie se o que é dito é realmente para lhe tirar do sério.
• Se você é amigo ou técnico de um “nervosinho”, tire-o de campo se o clima esquentar demais.
Fontes: Psicólogas do esporte Kátia Rúbio, Regina Brandão e Giorgia Orlandi e o técnico Nelsinho Baptista
Matéria Revista Invicto